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Mestre e MILITAR ministra aulas nos EUA e aplica estratégias militares no Jiu-Jitsu

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Cultura, movimentos corporais, disciplina, concentração, companheirismo, responsabilidade e respeito pelos mais experientes, são algumas lições que um praticante de Jiu-Jitsu levará para outras situações de sua vida. O esporte vem se tornando cada vez mais popular, é praticado dentro de várias instituições militares e ganhou espaço em ONGS como uma das principais ferramentas de resgate de jovens em situação de risco.

Vários atletas e mestres tem partido para fora do país, muitos declaram que no exterior o esporte brasileiro é levado mais a serio do que no próprio Brasil.

Os militares em particular, por conta do próprio oficio, tem um apreço especial pelas artes marciais. Em várias cidades do Brasil militares da reserva mantém academias de Jiu-jitsu e outras modalidades do mundo das artes marciais.

Essa semana conversamos com Mestre ALFREDO MARQUES, militar na reserva, conhecido na Marinha como Comandante Silva Neto, que atualmente ministra aulas de Jiu-Jitsu nos Estados Unidos. O mestre, bastante experiente, tem uma visão bastante ampla sobre as artes marciais e o potencial de desenvolvimento das mesmas no nosso país. As respostas francas do oficial – mestre devem ser observadas com atenção por aqueles que amam as artes marciais.

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  Bom dia Mestre Alfredo. Como o senhor conheceu o Jiu-Jitsu? Quando iniciou e como foi a sua trajetória?

 Eu fui apresentado ao Jiu-Jitsu no início da década de 70, juntamente, com meu irmão, fomos praticar na UERJ com o Professor Mauricio Lacerda, mestre de Jiu-Jitsu, professor de educação física e um dos melhores preparadores físicos do país na época. No início da década de 80, já faixa preta, fui treinar com o grão-mestre Osvaldo Alves e seu maior aluno e meu grande amigo, Sérgio Penha. Conquistei todos os títulos possíveis na minha época. Não esqueço as sábias palavras do Mestre Osvaldo: ” Se queres ser um leão, treine com eles”. E foi assim durante muitos anos.

Existem milhares de atletas, muitos deles são faixa preta. Contudo, poucos obtém sucesso e reconhecimento como verdadeiros mestres. Pelo que fomos informados, além de mestre em Jiu-Jitsu, o senhor é MILITAR das Forças Armadas Brasileiras.  O senhor crê que algum legado de sua vida militar lhe ajudou a obter sucesso e reconhecimento nessa empreitada pós-serviço ativo?

A afinidade com a vida militar sempre esteve em meu sangue, contudo foi o Jiu-Jitsu que forjou o meu caráter “a ferro e fogo”. Tudo que conquistei nessa vida devo ao Jiu-Jitsu. Contudo, a minha adaptação à vida na caserna aconteceu de forma silenciosa, pois  os três pilares de sustenção são os mesmos “hierarquia, disciplina e culto às tradições”. Em 2012 fui honrado pelo meu Mestre Osvaldo Alves com a Faixa Vermelha e preta, sendo devidamente, outorgada pelas CBJJ/IBJJF, diferentemente, de muitos outros que colocam uma faixa na cintura sem poder honrá-la. Eu sempre digo para meus alunos que sou militar, mesmo na reserva continuo sendo militar no coração. No Corpo de Fuzileiros Navais aprendi muita coisa que uso em minha aulas, principalmente, os princípios de guerra que direcionam nossas ações em combate. A verdade é que sempre me destaquei como professor de Jiu-Jitsu pelo fato de continuar a ser militar dentro e fora dos tatames. A condução dos treinos, a organização das aulas, o planejamento anual de treinamento, o fiel controle dos alunos no tatame e, usando um termo militar, o total comando, controle e coordenação de todas as atividades em campo (tatame), orientam minhas ações no teatro de operações (tatame).

O militar, por ofício, atua desde cedo como instrutor ao lidar com subordinados advindos das mais diversas classes sociais para neles empreender verdadeiras metamorfoses, assim transformando “paisanos” com seus diversos vícios, manias etc., em militares  profissionais, com formas de agir e reagir de acordo com a nova vida que escolheram levar. Em artes marciais ocorre um processo similar, o neófito tem de assimilar novos costumes, regras etc. Sabemos que o senhor mantém uma academia nos EUA, em Las Vegas. O senhor observa alguma diferença entre os jovens brasileiros e os norte-americanos. Maior facilidade ou dificuldade no que diz respeito ao adestramento, concentração, subordinação à novas regras?   

Primeiramente, não tenho academia em Las Vegas. Estou estudando inglês em uma escola aqui em Vegas e, por convite de meu grande mestre e amigo Sergio Penha, estou dirigindo os treinos em sua Academia, enquanto ele se recupera de uma cirurgia no quadril. Quanto aos americanos posso dizer com propriedade, que devido às melhores condições de vida  nesse país, eles estão apresentando uma evolução muito grande no aprendizado do Jiu-Jitsu e, em breve serão uma potência mundial nessa modalidade. Eles são disciplinados, dedicados e tem muita vontade em aprender, não importa o quê e nem como.

O Jiu-Jitsu da forma que o conhecemos, ou o Brazilian Jiu-Jitsu, tem apenas pouco mais de 100 anos de história. Portanto, se comparado com outras artes marciais, é um esporte jovem. Tendo se relacionado com pioneiros da arte, e inclusive lutado com alguns membros antigos da família Gracie, cremos que o senhor tem uma visão ampla do que foi , do que é e do que pode ser o brazilian Jiu-Jitsu.  Dito isso, o que o senhor espera para os próximos anos para o Jiu-Jitsu no Brasil e Mundo no que diz respeito à popularização,  organização, controle de rankings e graduações etc?   

Não espero muita coisa vinda do Brasil, pois um país que não trata o esporte seriamente, como ferramenta de desenvolvimento e inclusão social, estará sempre fadado ao insucesso. Contudo, aqui nos EUA a febre tomou conta do país. O americano está apaixonado pelo Jiu-Jitsu e se dedica ao máximo para desenvolvê-lo. O calendário americano, em muito menos tempo, superou o calendário brasileiro, em quantidade e qualidade. O futuro do Jiu-Jitsu está aqui na América, e não tem mais volta, quem não acreditar vai ficar para trás.

 Atenciosamente,

Mestre Alfredo Marques (Comandante Silva Neto)

A entrevista foi publicada na Revista Sociedade Militar / Republicada na Revista Lutas, com autorização.

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